A discussão em torno da Barragem de Girabolhos voltou esta sexta-feira a subir de tom. PS e PCP rejeitam a ideia, defendida pelo atual AD, de que a suspensão do projeto em 2016 resultou de um entendimento político com PEV. Para os dois partidos, a construção foi travada por decisão da Endesa.
Em conferência de imprensa, o líder parlamentar socialista Eurico Brilhante Dias acusou o ministro da Agricultura José Manuel Fernandes de ter “mentido” para, nas suas palavras, “tapar a incompetência” do Governo. O socialista garantiu que é “absolutamente falso” que Girabolhos tenha entrado em qualquer acordo partidário associado ao primeiro Governo liderado por António Costa, argumentando que esse entendimento se referia a novas barragens e não a uma obra que, diz, já estava em curso.
O PS sustenta ainda que a suspensão não partiu do Estado: Brilhante Dias apontou que, após a desistência da empresa, “o Estado Português não pagou qualquer indemnização”, leitura que usa para reforçar a tese de que a iniciativa não foi pública.
Do lado comunista, Paula Santos também quis “deixar bem claro” que considera mentira qualquer insinuação que responsabilize o PCP pela não construção. A líder parlamentar sublinhou que o partido nunca se colocou, em termos gerais, contra barragens e aproveitou para criticar o modelo de concessão a privados: na sua versão, Girabolhos não avançou precisamente por ter sido atribuída a uma empresa privada que acabou por não concretizar o projeto.
A polémica ganhou novo fôlego por causa das cheias recentes na bacia do Rio Mondego. A TSF relata que o ministro da Agricultura apontou ao PS e aos partidos que integraram a “geringonça” a responsabilidade por a barragem não ter avançado, defendendo que a infraestrutura teria evitado a “tragédia” vivida nos últimos dias.
Há, no entanto, um detalhe relevante para esta disputa: o ex-presidente da Endesa em Portugal, Nuno Ribeiro da Silva, disse à TSF que a empresa desistiu do projeto por “perda de confiança”, associando a decisão ao momento em que surgiu a intenção de rever o Plano Nacional de Barragens e as condições acordadas com investidores.
O PS enquadra ainda a discussão numa cronologia mais recente. Brilhante Dias recordou que, após as cheias de 2019, o Governo socialista lançou o programa Mondego + Seguro, com um montante de 35 milhões de euros. E acrescentou que, em 2024, no final do ciclo governativo do PS, estariam executados 12 milhões. Segundo o líder parlamentar, a pasta de transição entre governos incluía a continuidade do programa, mas hoje, “passados praticamente dois anos” de governação da AD, diz não conhecer o desenvolvimento dessa intervenção.
Do lado do PCP, Paula Santos insistiu na necessidade de investimento público, apontando obras como os diques e defendendo a conclusão do aproveitamento hidroagrícola do Mondego. A dirigente comunista disse ainda que o partido apresentou uma proposta no âmbito do Orçamento do Estado para 2026 com esse objetivo, mas que foi chumbada pelo partido do Governo e pelo PS.
Enquanto PS e PCP desmontam a narrativa que atribuem ao Governo, o executivo sinaliza que o tema está de novo no terreno: a TSF refere que o Governo já anunciou que, no final de março, será lançado o concurso para a construção da barragem. A Agência Portuguesa do Ambiente foi incumbida de preparar esse procedimento, segundo informação divulgada também pela Renascença.
Em resumo, Girabolhos regressa ao centro do debate com duas frentes bem definidas: de um lado, o Governo a apontar culpas ao passado político; do outro, PS e PCP a atribuírem a suspensão à decisão empresarial da Endesa e a exigirem que o foco passe do duelo de versões para a execução de medidas concretas na proteção do Mondego e da zona de Coimbra.


