“Colagem” ao Chega custa uma histórica ao PSD: militante devolve cartão e rompe

Manuela Aguiar entregou o cartão de militante e deixou o PSD, assumindo desilusão com a orientação do Governo da AD em matéria de imigração e com o que descreve como uma aproximação repetida ao Chega no Parlamento, sobretudo a partir do segundo executivo chefiado por Luís Montenegro.

Em declarações à TSF, a antiga governante explicou que, no primeiro Governo, se sentiu “aplacada” pela existência de uma linha vermelha, resumida na expressão “Não é não”. A mudança, diz, foi evidente quando começaram a surgir “alianças constantes” na Assembleia da República em dossiês de imigração, precisamente temas em que não esperava ver o PSD alinhar.

Manuela Aguiar considera que se instalou no debate público uma perceção “completamente errada” sobre imigração, alimentada por “fake news” e pela lógica das “perceções”. Na leitura que faz, o problema não é haver imigrantes a mais, mas sim “serviços a menos” para garantir a legalização e a resposta administrativa, sublinhando que os imigrantes são “absolutamente precisos” para a economia.

A ex-secretária de Estado admite preocupação com redes de tráfico de imigração, referindo o caso do Alentejo, mas defende que o país corre o risco de negar condições para que a imigração se mantenha “pacífica” e útil, com impacto também no enriquecimento cultural. Diz, ainda, que a posição que sempre assumiu em defesa dos portugueses emigrados é a mesma que aplica aos estrangeiros em Portugal, concluindo que, com esta visão, “é impossível” continuar no PSD atual.

Na mesma entrevista, Manuela Aguiar afirma que o PSD de hoje é “completamente diferente” do partido fundado por Francisco Sá Carneiro e confessa sentir “um verdadeiro horror” quando ouve dirigentes a invocarem o nome do fundador. Entre os exemplos que aponta, cita o ministro da Presidência António Leitão Amaro e a frase “Portugal fica mais Portugal” a propósito da revisão da lei da nacionalidade, posição que rejeita, dizendo que, na sua perspetiva, isso tornaria o país “menos” e não “mais”.

Manuela Aguiar foi, segundo a TSF, a primeira mulher com cartão de militante do PSD a integrar funções governativas, num executivo liderado por Mota Pinto. Nasceu em Gondomar, licenciou-se em Direito e foi secretária de Estado do Trabalho em 1978-79. Mais tarde, desempenhou funções ligadas às Comunidades Portuguesas e foi deputada durante vários anos.

No plano político mais imediato, a antiga governante considera que o primeiro-ministro errou na forma como se posicionou na segunda volta das presidenciais, referindo a ausência de apoio a António José Seguro, e diz acreditar que o Presidente eleito será “um excelente chefe de Estado”.